Entre os dias 20 e 23 de janeiro de 2026 acontece em Fonte Boa, no estado do Amazonas, o curso Letramento Digital para Gestão de Associações e Cooperativas de base familiar. O público formado por cerca de 40 pessoas é composto por lideranças locais de associações e cooperativas de base familiar da Reserva Extrativista Auatí-Paraná (Resex Auatí-Paraná) e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDS Mamirauá). A equipe de Formação é composta por 10 colaboradores entre professores/as e monitores/bolsistas. As atividades vão desde aprender a montagem de microcomputadores, configuração de contas de e-mail, até cálculos simples em planilhas, formatação de textos em mensagens, anexar documentos até a discussão sobre cidadania e segurança digital.

O curso faz parte do Programa CapGestão – coordenado pela GIZ. O objetivo do curso é fomentar o desenvolvimento de habilidades digitais essenciais para o progresso individual e coletivo da comunidade. O letramento digital é essencial para fortalecer a organização e a gestão de associações e cooperativas de base comunitária na Amazônia, para organizar e digitalizar as informações, como as contábeis e de fluxo de caixa, bem como a construção de textos para regimentos internos e atas de assembleias, por exemplo.
“Este curso complementa o CapGestão”, diz o professor Elton Teixeira, da Universidade Estadual do Amazonas, multiplicador do CapGestão e elo da Rede Saberes Amazônicos em Extensão Rural, Agroecologia e Sociobiodiversidade – Resaberes. O CapGestão já possui uma ampla experiência em cursos, cujo foco é o fortalecimento de práticas administrativas com ferramentas, processos e novas perspectivas para os desafios do empreendedorismo. Ele visa instrumentalizar o conhecimento administrativo e gerencial, utilizando recursos digitais simples que melhoram a qualidade e a produtividade nas rotinas laborais.
“Quando trabalhamos no primeiro curso do CapGestão com as pessoas comunitárias da RDS Mamirauá, notamos que eles (os comunitários) faziam muitas anotações à mão, em pequenos cadernos, fazendo o caixa, escrevendo cartas, utilizando muito o papel e a caneta. Este curso de Letramento Digital vem ao encontro de uma melhoria contínua nos processos dessas associações e desses empreendimentos de base comunitária. O que nós estamos vendo é o quanto eles estão interessados, pois esse conhecimento vai agilizar a comunicação que antes eles faziam pessoalmente, pois estão percebendo que podem agora escrever e enviar e-mails, fazer requerimentos, tudo pelo computador”, diz Elton.
Para Antônia, da comunidade São Francisco da Mangueira, no setor Macopani, na RDS Mamirauá, “o CapGestão trouxe um benefício grande. A gente já tinha conhecimento de atas de reuniões, mas nada sobre requerimentos, por exemplo. Após o curso já enviamos dois requerimentos”.
Os equipamentos (30 computadores de mesa, 5 notebooks e 5 impressoras) do curso foram cedidos pelo Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática/Escola Politécnica da USP (CEDIR – EPUSP) e pelo Laboratório de Sustentabilidade/ Escola Politécnica da USP (LASSU – EPUSP).

Ao longo da trilha formativa, entre encontros presenciais e a aplicação prática entre os módulos, a iniciativa, já proporcionou o Módulo 1, em dezembro de 2025 e dois encontros de mentoria realizados à distância. Os encontros presenciais estão sendo realizados na sede da Associação Agroextrativista Auati-Paraná (AAPA).
A maioria dos alunos ou alguém da família possui um aparelho celular, mas não um computador. Dos 40 inscritos, 31 disseram no momento da inscrição que não tinham nem conheciam alguém que pudesse emprestar um computador para utilizarem e praticarem seus conhecimentos. Assim, enquanto o curso não finaliza e os computadores ainda estão na sede da AAPA, as pessoas comunitárias estão colocando o curso em prática por meio de aparelhos celulares (pelo menos 1 membro da família tem). Assim, o “Intermódulo” teve que ser adaptado para ferramentas disponíveis nos aplicativos dos dispositivos móveis, ampliando ainda mais os conhecimentos dos cursistas.

O primeiro módulo que ocorreu na sede da AAPA passou por três principais desafios: 1. o calor, porque o salão de reuniões da Associação não tinha ar-condicionado; 2. não havia um bom acesso à internet, o que ficou parcialmente resolvido com a cessão da internet pela parceira Fundação Amazônia Sustentável – FAS e; 3. os computadores não tinham acesso à internet Wi-fi. Sendo assim, para o segundo módulo do curso, a direção da AAPA fez mudanças na infraestrutura da sua sede: colocou forro na sala de reuniões, comprou dois aparelhos de ar-condicionado de 18.000 BTU e comprou dois pontos de acesso à internet à distância. Isto é, transformou uma sala em um laboratório de informática na Resex para assim finalizar o curso e disponibilizar uma parte dos computadores para que as pessoas formadas no curso ensinem às outras que não puderam participar do curso. Segundo o presidente da AAPA, Edvaldo Tavares de Lima: “a gente viu as dificuldades dos alunos, por causa do calor na sala onde foram ligados os computadores. Como aqui a gente se preocupa com essa questão de ver as pessoas bem, no local onde trabalha, a gente se preocupou em colocar um ar-condicionado – até para melhorar o aprendizado dos alunos, para que eles tenham um melhor desenvolvimento”. No segundo módulo, os computadores também têm acesso à internet, graças à compra de pequenos conectores feita pelo Projeto Bioeconomia (USP).
Participação da juventude
Entre os participantes do curso de Letramento Digital estão alguns membros do grupo de Jovens “Verde Chama”. O grupo de jovens foi formado após incentivo de um intercâmbio na Floresta Nacional de Tefé (Flona Tefé), outra Unidade de Conservação de Uso Sustentável, que conta com a gestão do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e parceiros incentivam a auto-organização da juventude desde 2014.
Sobre o Curso de Letramento digital, a opinião de um dos jovens é “eu aprendi bacana, era bem o que eu esperava”, diz Gemerson, 21 anos, morador da comunidade Curimatá de Baixo, da RESEX Auati Paraná. O jovem também diz que o curso está lhe ajudando e deseja aprender mais. “Estava precisando desse curso, acho que ele vai me ajudar para a minha vida toda. Esse ano eu vou trabalhar para comprar um computador para eu ter o meu mesmo. E esse é o meu sonho, estudar tecnologia”.
Gama de parcerias
O projeto conta com uma vasta rede de parcerias, que inclui: Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal; Fapesp/USP – Projeto n.409595/2022-5 CNPq/USP Bioeconomia Inclusiva na Amazônia; Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA USP – Grupo de Pesquisa Bioeconomia); Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática/Escola Politécnica da USP (CEDIR – EPUSP); Laboratório de Sustentabilidade/ Escola Politécnica da USP (LASSU – EPUSP); FGV/SP; Escola Superior de Ciências Sociais/Universidade do Estado do Amazonas (ESO/UEA); Laboratório de Geografia do Trabalho e Dinâmicas Territoriais na Amazônia (Lagettam)/Centro de Estudos Superiores de Tefé (Cest)/UEA; Instituto Federal do Amazonas (IFAM – Campus Tefé); Associação Agroextrativista Auati-Paraná (AAPA); Fundação Amazônia Sustentável (FAS); Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) e o Projeto Bioeconomia para Florestas, desenvolvido pela Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável, a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH, em parceria com o Ministério Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e o Instituto Chico Mendes para a Biodiversidade (ICMBio). E conta também com o apoio da Força Aérea Brasileira (FAB) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam).
A GIZ foi responsável por coordenar e custear para os professores e estagiários, além de alimentação, pagamento de deslocamento urbano, deslocamento fluvial e hospedagem em Manaus para os professores de SP. Já a Fundação José Egydio arcou com as passagens aéreas e hospedagens em Tefé e Fonte Boa. A FAS apoiou o transporte dos comunitários da RDS para a sede do município, apoio com internet à distância e transporte dos computadores do aeroporto de Manaus para Fonte Boa. A FGV/SP realizou o pagamento da ajuda de custo dos professores de SP, a UEA/Manaus colaborou com a disponibilidade de um professor e dois estagiários, assim como UEA/Tefé e IFAM/Tefé.
O Projeto Bioeconomia/USP foi essencial para viabilizar o equipamento para acesso remoto à internet WIFI e promover uma articulação com os parceiros, como o Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática/Escola Politécnica da USP (CEDIR – EPUSP) e Laboratório de Sustentabilidade/ Escola Politécnica da USP (LASSU – EPUSP), responsável pela doação de computadores e impressoras. A doação de computadores só foi possível, pois a iniciativa contou com o apoio da FAB – transporte dos equipamentos de SP para Manaus.